Entrevista com a banda Threesome de Campinas/SP!!!
de on setembro 2, 2018 dentro Entrevistas
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Sempre houve a velha frase “sexo, drogas e Rock and Roll’, nem sempre os 3 itens juntos, muito menos nessa ordem, mas, é um assunto que nunca deixa de estar em pauta…

Um quinteto de Campinas/SP vêm chamando a atenção devido suas apresentações enérgicas, um consistente trabalho sonoro e principalmente pelas pitadas de malícia envolvidas em suas letras.

O nome desse grupo é Threesome, o que pode ser a fantasia de muitos, é a realidade em termos de música para essa galera. A malícia, o flerte com aquele Rock seminal dos anos 60/70, com um toque de modernidade da atual cena Indie, mostra como o bom gosto e a criatividade pode gerar bons frutos.

Então vamos ao que interessa, batemos um ótimo papo com a Juh Leid vocalista da banda e você confere abaixo, se liga!

Primeiramente é um prazer poder falar um pouco de vocês em nosso site. Gostaria de saber como foi o início do Threesome, o lançamento do primeiro álbum “Get Naked” em sua formação anterior, e, claro, os perrengues para se manterem até aqui…

 

Juh Leidl – Nós é que agradecemos a oportunidade de ter espaço para falar um pouco sobre nosso trabalho.

O projeto inicial da Threesome começou em 2012 com Fred Leidl, eu e Bruno Baptista. Durante o ano de 2012-13 fizemos as audições de músicos para a formação da banda, preparação de material para lançamento de um álbum, o Get Naked, e para shows inteiramente autorais. Em 2014 lançamos o álbum e começamos a fazer shows. De cara convidamos o Bob Rocha que também participava das nossas gigs e sempre apresentou um trabalho sólido e um super talento para linhas de baixo. Para compor uma “cozinha” perfeita encontramos Henrique Matos. A história de como o conhecemos por si só já é uma saga digna de muitos parágrafos, mas resumindo, vimos o Henrique colocar um bar abaixo reencarnando o Keith Moon de maneira assustadora e impecável, ficamos muito impressionados e depois de quase um ano de buscas finalmente ele era o baterista da Threesome, na época o apelidamos de “Rick Moon”. Para guitarra solo, trabalhamos inicialmente com o Victor Marques por um ano mais ou menos quando entrou o Bruno Manfrinato, atual integrante.

Sempre trabalhamos alternando três vocais entre Bruno, Fred e eu, e as vezes duetos, mas o Bruno Baptista era o que interpretava o maior número de músicas da Threesome. Em janeiro de 2017 estávamos com data marcada para entrar em estúdio e gravar o novo EP, foi quando o Bruno Baptista avisou que estava se desligando da banda. Acredito que esse foi o momento de maior desafio. Tivemos que adiar a entrada no estúdio, mas estávamos desde novembro anunciando o trabalho do novo EP com a equipe de assessoria o que não nos deixava muita margem de tempo. Dividimos as músicas entre os vocais do Fred Leidl e os meus e nessa mudança veio a necessidade de refazer os arranjos, principalmente nas músicas que saíram do vocal masculino para o feminino. Perder um integrante na banda nunca é um processo simples, ainda mais quando se trata do vocal principal, e o Bruno Baptista era um dos 3 que começaram o projeto. O lado bom dessa mudança foi percebermos que a banda Threesome mais do que nunca sempre foi e será uma BANDA no sentido mais profundo da palavra. Nós não temos brigas internas de ego, o nosso processo de criação, composição e arranjos cada vez mais acontece em conjunto e todos contribuem em todas as músicas. Nosso foco é sempre pelo melhor para A MÚSICA. Nossa linguagem, nossa musicalidade, nossa personalidade só ficaram ainda mais evidentes além da nossa união. Tínhamos um grande desafio ao reorganizar a “casa” e conseguimos fazer juntos. Não foi fácil mas tenho a sensação que ficamos mais maduros e ainda mais cúmplices depois de tudo, algo que ficou mais evidente no novo material.

Tirando as questões básicas de formação, os desafios de uma banda de rock autoral são os mesmos… falta de espaço, dificuldade para conseguir entrar em projetos de SESC e festivais no Brasil porque nossas músicas são em inglês e não temos show de cover montado por opção. Tudo que produzimos depende de muito investimento pessoal em tempo e dinheiro e o mundo digital facilitou pra conseguirmos jogar nosso material no mundo mas também criou um espaço infinito em que pra ser visto é necessário ter muita grana pra impulsionar, ou seja, não mudou muito do que acontecia no rádio.

Essa imersão em sons mais seminais, a crueza dos estilos da década de 60/70, o flerte com o Blues, o Acid Jazz e o Indie, foi algo proposital ou simplesmente fluiu naturalmente?

 

Juh – Na verdade não definimos. O estilo, a composição, os arranjos são totalmente naturais, jamais direcionamos ou moldamos pra encaixar o trabalho em um estilo ou conjunto de influências. Tudo acontece de maneira muito livre e segue a intenção da letra ou a letra da harmonia e em cima disso procuramos entender que sonoridade e abordagem aquela composição em particular pede.

Claro que todos temos mais ou menos a mesma idade e influências musicais. Os gostos são bem parecidos e aí é que a química acontece e vira música. Quando esse processo é bem sucedido, mesmo fazendo um blues, depois um hard e depois um jazz, ainda mantemos a personalidade da banda que, ao final das contas, posso chamar de compromisso com a arte. Temos uma grande preocupação em sermos verdadeiros não importa em que estilo. Acho que isso nos salva do emaranhado.

 

Falando de passado… Uma das minhas músicas preferidas do primeiro álbum era “Crawling”, que lembrava muito aquelas apresentações de filmes antigos em cabarés, com aquele tom intimista e bem sedutor. Ainda há espaço para esse tipo de música no futuro da banda?

 

Juh – Criamos músicas com temas eróticos, mas temos material para pelo menos mais três CD’s já compostos entre letras, só bases e outras letra e base e não ficamos presos só em sexo mas aconteceu de deixarmos no primeiro álbum, o Get Naked e no EP Keep on Naked, músicas do gênero. Falar sobre temas eróticos é uma maneira de explorar a liberdade de pensamento, de normas, e a banda tem tanto isso em comum, essa busca pela liberdade, que nos possibilita fazer músicas com temas fora do nosso padrão, com estilos fora do nosso, como Crawling, que você cita, e é um jazz e nos permitimos inclusive mexer em músicas já gravadas ao invés de só lançar novas. Nesse mood de “mashup” de estilos o que nos importa é fazer coisas que gostamos. Uma das nossas principais influências são os Beatles que foram totalmente revolucionários em seus álbuns, com misturas mais que inusitadas, eles lá atrás, já mostraram que não precisamos fazer 11 músicas com a mesma cara, não é aí que a banda mostra sua personalidade… Temos sempre a preocupação de não fazer um setlist, ou um álbum que seja chato ou ainda previsível… a gente não quer que o público se “acostume” com o som, com a sequência de notas, de recursos, a gente quer que ao ouvir a Threesome o público se surpreenda e fique com sensação de “COMO ASSIM JÁ ACABOU?”. Então, sim temos espaço para músicas no estilo “Crawling” e muito mais rs.

Hoje vocês têm em mãos o EP “Keep On Naked” lançado no ano passado, com três músicas que mostram um amadurecimento acima do normal para algumas bandas. Para mim essa evolução veio mesmo durante a nova roupagem de “Every Real Woman” onde parece que houve uma ruptura com o passado da banda, mas que hoje se mostra com uma cara mais ousada e muito mais fluida do que antes. Sem contar com as ótimas “Sweet Anger” e “My Eyes”. Como foi essa transição?

Juh – Temos recebido ótimas críticas, aliás o que nos assusta, até agora nada negativo em relação ao EP e sempre com essa percepção de crescimento da banda por parte dos veículos que o analisam, bem como nosso público que também adorou o novo trabalho. Como estou totalmente inserida no contexto, fica mais difícil perceber essa evolução. O que sinto e fica bem claro, acredito que a saída de outro integrante acabou contribuindo como um dos fatores dessa mudança, é que atualmente os gostos musicais e as influências estão um pouco mais em uníssono, não temos o menor problema em soar mais pesado ou agressivo e era algo que vinha incomodando o antigo vocalista. Quando começamos a desenvolver o material para lançar os EP’s (temos mais um pra sair esse ano) e o novo álbum, que deve vir entre final de 2018 e começo de 2019, nosso processo de composição e arranjo já estava diferente, com todos muito mais presentes e trabalhando intensamente, não só em cima do seu instrumento, mas no geral de cada faixa. E claro, trazendo mais essa energia, até um toque de agressividade, mas sem medo de ser feliz rsrs. Acho que ter que repensar e remodelar as músicas para acomodar os novos vocais, tanto meus como os do Fred que são totalmente diferentes do estilo do Bruno, nos fez olhar para as músicas por outra perspectiva. Tudo isso talvez seja o conjunto de fatores que se faz presente no amadurecimento da banda.

 

Existe uma veia artística muito forte dentro do Threesome, seja no lado musical, como nas artes visuais no seu caso (a vocalista Juh Leidl) que já mostrou uma verve bem interessante em suas obras, destacando também a bela capa de “Keep On Naked” em que há a exposição do nu em várias imagens sobrepostas e que ficou sensacional. Além dos casos já citados, existe mais alguma interação de outros integrantes em outras vertentes da arte? E como foi a concepção da capa do EP?

 

Juh – Acho que nesse ponto eu sou a única que transito entre mundos da pintura e música. Sobre a capa, tentei criar em cima dos temas das três músicas, ambas ligadas às relações humanas, com um apelo do envolvimento sexual de maneira intensa mas ao mesmo tempo leve, dinâmica, e natural. O primeiro álbum foi o “Get Naked” e para o EP, dentro da proposta e estética musical que demos as músicas e aos arranjos que colocamos nas regravações, achamos que o álbum deveria se chamar Keep On Naked e mostrar essa harmonia, ritmo, swing, calor e intensidade que buscamos. As músicas foram gravadas live e em rolo de fita pra deixar o mais real e orgânico, o mais “naked” possível, o mais verdadeiro possível. E a capa tentar traduzir justamente isso. As posições e contornos humanos trazem inconscientemente a mesma forma do símbolo de nosso logo. No mais a arte traduz sozinha o que queremos causar de sensação ao escutar as músicas, eu espero rsrs.

 

Infelizmente é de conhecimento de todos que passamos por tempos obscuros, de apontadores de comportamentos e de reguladores de atitudes. O nome Threesome já é como o próprio Rock um quebrador de paradigmas, de subverter o status quo e colocar as pessoas para pensar fora da caixa. Como se deu a origem do nome da banda e qual a mensagem que o quinteto procura passar aos seus ouvintes?

 

Juh – Para começar a contagem das músicas, um dos vocalistas da época, o Bruno Baptista da “banda de fim de semana”, sempre mandava um “one, two, three… some”, e para a zoeira geral ninguém nunca entrava na contagem dele rs. Dessa brincadeira do Fred Leidl, Bruno Baptista junto comigo, Juh Leidl, resolvemos focar e levar a sério o projeto de uma banda de rock autoral. Começamos a escrever mais músicas, pensar nos arranjos e a procurar outros integrantes para compor o time. Então não foi algo tão glamour rs, mas de qualquer maneira achamos interessante o nome e quando passou na nossa cabeça, “nossa mas Threesome, será que não é muito…” OK só por nos perguntarmos isso já ficou decidido que TINHA que ser rsrs.

Sobre os paradigmas e conteúdos das músicas, em grande maioria não são explícitos como uma letra de funk por exemplo, e sim eróticos, maliciosos, dúbios, são mais ideias sobre posturas, comportamentos e escolhas sexuais ou de relacionamento do que necessariamente algo de linguagem imprópria. Talvez pra uma sociedade que se fecha cada vez mais, as ideias que jogamos em discussão, essas sim, sejam um problema. Na grande maioria quem não tem a “biblioteca da malícia” pode nem entender o conteúdo das letras mas como hoje até uma homenagem da Polenguinho para o Pink Floyd tem quem associe com apoio LGBT, na verdade poderíamos falar de gatos e sorvetes e mesmo assim alguém achar que somos pervertidos que promovem a zoofilia…

O sexo e toda a curiosidade sobre ele está presente em nossa história humana desde os primórdios, logo é natural termos vontade de falar sobre ele. As artes por sua vez têm como princípio básico ser manifestação da expressão humana e sua visão e busca da compreensão sobre tudo ao nosso redor. Logo, arte mais sexo faz todo o sentido. O clichê sexo e rock n roll pode parecer batido, mas continua sendo verdadeiro, o rock tem seu caráter muitas vezes rebelde, marginal, incontrolável e como o sexo ainda hoje continua sendo tabu, por mais absurdo que pareça, mais uma vez falar sobre ele no rock é quase que inevitável. Quando escrevemos as letras das músicas não partimos de um ponto tão racionalizado, por exemplo, “…vamos fazer uma letra sobre uma personagem diante da opressão e objetificação da mulher na sociedade contemporânea…”, simplesmente escrevemos uma letra sobre uma mulher forte, bissexual, que toma a iniciativa, que faz o que gosta sem ligar pra julgamentos, que lida com o sexo de maneira livre e por isso é motivo de admiração e desejo simplesmente porque é assim que a vemos e como queremos mostra-la, acredito que de alguma forma isso contribui pra trazer outro ponto de vista para as pessoas. Falar sobre bissexuais nas músicas é uma forma de lidar com questões de orientação sexual, por exemplo. Temos músicas pra falar sobre relacionamento aberto, outro tabu monstro em nossa cultura, e acho que o mais importante é a busca por respeito da individualidade e opção de cada um de nós, queremos levantar o assunto, que ele existe e não tem nada de errado nisso, temos sim uma preocupação em falar sobre Liberdade e Respeito, em vários sentidos, você pode achar que aquilo não cabe para a sua vida, para as suas verdades, mas deve respeitar quem acha sem preconceito.

 

Como estão vendo ou lidando o com os “jovens conservadores” atuais e suas ideias retrogradas? Como acham que hoje com tanta informação, com pais que lutaram por tanta liberdade, essas pessoas que se fecham num casulo observando a vida numa ótica dissonante da realidade, será que ainda conseguirão manter viva essa chama Rock and Roll futuramente?

 

Juh – Não sei também se muito desse novo moralismo que estamos vendo aflorar não é um efeito direto da hiper exposição a tudo nas mídias de massa mas sem cultura e educação adequados pra se conviver com isso de forma mais consciente e sem choques.

Tivemos uma revolução nas questões sexuais nos anos 60 e 70, mas em 80/90 tivemos que lidar com a AIDS, lembro de ver vários ídolos definhando e morrendo em rede nacional. Sou de uma geração super preocupada com doenças venéreas encabeçada justamente pela AIDS e o pânico a respeito dela. Ao mesmo tempo vivemos o boom da internet, uma revolução nos meios de comunicação, volume monstro de informação em vários pontos e claro que o sexo também veio junto. Aí temos pais desesperados porque não tem como controlar o que os filhos acessam de conteúdos, aí do medo surge a repressão, por sua vez temos menos consciência sobre questões sexuais hoje do que anos atrás e como resultado dessa falta atualmente estamos convivendo com uma epidemia de Sífilis e indícios de aumento de casos de AIDS que estavam sob controle há anos.

Muitos pais foram hippies, criaram seus filhos de maneira um pouco mais fechada e os netos ou jovens de hoje em dia cresceram sem um diálogo com os pais sobre vários assuntos, sexo, música, política, é aquele famoso efeito onda das gerações mais liberais e na sequencia outra mais caretas…

No meio disso tudo também aconteceu uma revolução na maneira como se consome música, e que tipo chega no mercado e bem ou mal ela era um fator crucial no fomento do pensamento crítico da geração dos meus pais até a minha e que foi se perdendo mais adiante.

Enfim, não sei bem como fica “esse tal de rock n roll” daqui pra frente, mas sei que gostamos e vamos continuar fazendo. rsrs

E sobre o futuro da banda, já existem planos para um novo álbum? Se sim, como estão as novas composições e o que os fãs da banda podem esperar?

 

Juh – Estamos trabalhando feito loucos! Agosto temos o lançamento de uma versão de “Badlands” para um tributo ao AC/DC e novembro acredito que saia nossa versão de “Perfect Strangers” do Tributo Deep Purple, ambos de um selo da Inglaterra.

Ainda no segundo semestre teremos a gravação do nosso clipe oficial com o diretor Jun Sakura, mas é surpresa, então não posso revelar mais rsrs.

Essa semana aconteceu o primeiro ensaio da banda para começar a organizar o conteúdo do próximo EP. A princípio 4 faixas todas inéditas e vamos ter muito peso, mas também uma outra faceta da banda que vamos tentar mostrar (não vou dar spoiler hehe). Já começamos a montar os arranjos, está super trabalhoso, mas tenho certeza que irão gostar!

Entre Dezembro e Março de 2019 lançaremos o nosso segundo álbum, contendo músicas dos dois EPS e mais quatro ou cinco faixas novas. Após o lançamento vamos tentar organizar o ano para turnê e shows uma vez que estamos há praticamente dois anos dedicados ao estúdio.

Com poucos recursos nem sempre conseguimos produzir tudo no tempo que gostaríamos, não temos como ficar inseridos dentro de um estúdio ou uma casa na montanha compondo e arranjando tudo de uma vez, mas dentro do possível a banda se mantém na atividade.

 

Por favor deixe suas considerações finais e mande um recado para a galera que sempre os acompanham.

 

Juh – Não desistam do Rock, apoiem a cena local, estimulem a renovação do Rock, ouvir o novo não é blasfemar os clássicos, pelo contrário, permitir que o estilo prevaleça é a maior homenagem que podemos prestar aos nossos ídolos.

Muito obrigado por bater esse papo com a gente e longevidade ao Threesome!!!

Juh –  Vida longa ao Rock n’ Roll!!!

 

 

***Crédito fotos: Daniel Gonçalves***

Para mais informações sobre a Threesome, acessem:
www.3somerock.com  
www.facebook.com/3some  
www.youtube.com/threesomerock
www.twitter.com/ThreesomeRock
www.instagram.com/threesomerock
www.soundcloud.com/threesomerock

 

 

 

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